10.3.10
Sem frescura
Ando achando tudo uma hipocrisia danada. Ando me preocupando demais com o bem estar dos outros, pensamento dos outros, sentimento dos outros, paixão e crítica dos outros. E o meu bem estar, pensamentos, sentimentos, críticas e paixão, neste momento estão perdidos em algum canto da casa. E olha que eu nem estou no meu inferno astral. E nem sofrendo de dor de cotovelo. Nada disso. Apenas encontro-me no centro de um furacão de sentimentos inominados. Tudo está bloqueado. Incerto. Indizível. E inimaginável. Não quero sentir. Porque não posso apalpar o que sinto. E não quero dizer, porque ouvir minha própria voz machuca. Queria ouvir outra voz, que me dissesse outras coisas. E me levasse a outra realidade, bem diferente. Queria entrar pela estrada e seguir sem rumo, e ir devagar olhando a paisagem. Todo o tempo disponível seria só meu. Eu decido o rumo que vou tomar. E as minhas decisões, que são só minhas, serão só minhas até o fim da estrada. Quero ir pra poder voltar limpa e livre desse turbilhão todo de insensatez. Se quiser falar comigo, daqui pra frente vai ter que usar todas as palavras. Nada de entrelinhas, coisas por dizer. Presunção de inocência, nem pensar. Chega. Se quiser falar comigo, daqui pra frente, use todas as palavras. Sem economia. Sem frescura. E sem pudor.
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