No metrô, ninguém é igual a ninguém. Olho pro lado e uma menina lê, atenciosamente, o seu livro. Tento, curiosa, descobrir qual livro é, tamanho é o interesse dela. Mas não consigo. Ela não deixa. Ela não quer. Ela deve ser dessas que tem ciúme dos livros. Das suas páginas. E anotações. Mas minha capacidade de concentração, hoje, se esvai rapidamente e então, desisto fácil.
Do outro lado um homem cuidadoso carrega afetuosamente a criança impaciente que tem nos braços. Deve ser o pai, afinal de contas, quem, ali, naquela imensidão de gente, deixaria uma criança indefesa ser carregada por um estranho?
E daí me pego pensando no sentido daquela multidão. Todas aquelas pessoas reunidas em suas pressas e compromissos perdidos e remarcados, e telefones tocando, e querendo sempre fazer mais, ter mais, correr mais. Tenho a impressão que ninguém sai do lugar.
E de repente meu coração aperta no peito. Me sinto uma estranha nesse ninho de cidade grande. E estou sozinha. Quero silêncio. Meu Deus, quero silêncio!!! Lá de onde eu venho as pessoas se olham nos olhos. E permitem uma troca, que aqui, nessa multidão, é impossível de se imaginar. De onde venho, esse contato repleto de superficialidade seria inaceitável.
Olho pro lado de novo, e só vejo incertezas. Fecho os olhos, não quero ver mais nada. E a mocinha do metro avisa qual estação se aproxima e me obriga a abrir os olhos, que neste momento já estão muito pesados. Abro, e as pessoas se apressam para ficar próximas à porta. E me apertam. E empurram. E me fazem querer ainda mais o lugar de onde venho. De onde, na realidade, eu nunca saí. É lá que estou sempre. Eu nunca saí de lá.
Fecho os olhos novamente. A esta altura o vagão está menos cheio. E estou quase no meu ponto final. E a cada estação meu coração enche de um pouquinho de alegria. Em cada estação estou mais próxima de lá de onde venho. Porque cada estação que fica pra trás, mais estou perto de estar na sua frente. Que é onde tudo acontece. Dentro e fora de mim. Pra agora e pra sempre, assim, lá, o lugar de onde venho...
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